Pessoas difíceis no trabalho costumam ser colegas com quem a convivência emperra por causa de comportamentos pequenos e repetidos, cuja intenção nem sempre fica clara. Lidar com elas começa por separar o comportamento do rótulo. Num atrito assim, o Tipo Principal do Eneagrama ajuda a ver a parte de quem se incomoda.
O que é uma pessoa difícil no trabalho?
É o colega com quem o convívio emperra, e o dicionário já põe o peso aí. Entre os sentidos de difícil, o Michaelis registra “que oferece dificuldade ao convívio”1 e “custoso de contentar”1. Os dois descrevem a pessoa pelo efeito que ela tem na convivência com os outros.
Na pesquisa sobre o trabalho, comportamentos assim têm nome: incivilidade. Malheiros e colegas publicaram em 2024 uma revisão sistemática sobre o tema, feita na Web of Science sem limite de data2. Nela, lembram que, para Andersson e Pearson, autoras de um trabalho de 1999, a incivilidade está ligada a comportamentos rudes, desrespeitosos ou indelicados2.
Ela pode partir de chefes, de colegas ou de clientes2. Entre as formas que a revisão cita estão a exclusão social, os comentários depreciativos, as fofocas e os e-mails ofensivos2.
Para separá-la de outros problemas, a revisão aponta elementos como a baixa intensidade e a intenção ambígua de causar dano2. Agressão e bullying são mais evidentes; a incivilidade é mais difícil de interpretar e não é claramente diagnosticada2. A mesma revisão registra outra leitura: na definição de Andersson e Pearson, que ela chama de a mais utilizada, a incivilidade vem com a intenção de prejudicar um alvo2.
A resposta seca no corredor, o e-mail sem bom-dia, o pedido devolvido sem explicação: cada um pode ser lido como desprezo ou como pressa, e quem recebe nem sempre sabe qual dos dois. Quando o comportamento deixa de ser ambíguo e vira agressão, o caso é do canal formal da empresa.
Por que um colega passa a parecer difícil?
Porque, depois de alguns episódios, a explicação tende a sair do que aconteceu e ir para o jeito da pessoa. Num artigo de 1995, Gilbert e Malone descrevem o viés de correspondência: a tendência a tirar conclusões sobre características únicas e duradouras de alguém a partir de comportamentos que a situação em que ocorreram poderia explicar por inteiro3.
Os autores tratam essa tendência como um dos fenômenos mais fundamentais da psicologia social3. O artigo descreve quatro mecanismos que produzem o viés e discute como as consequências dessas conclusões podem fazer com que elas se perpetuem3.
No trabalho, a sequência pode ser simples. Quem já concluiu que o colega é difícil passa a tratá-lo com cautela, ele devolve a mesma cautela, e a resposta parece confirmar a conclusão.
A situação é o que costuma ficar fora de vista: a meta que o colega recebeu, ou o chefe dele, que cobra outra coisa. Quem vê só o pedaço da cena que chega à própria mesa vê a resposta seca e não vê o que a produziu.
Numa discordância, os dois lados fazem esse movimento ao mesmo tempo, cada um com o outro, como mostra o post sobre gestão de conflitos.
Qual é a sua parte no atrito com um colega difícil?
É o peso que o comportamento dele tem para você, e é desse lado que o teste trata: ele descreve quem responde, e não o colega. O mesmo colega pode ser difícil para uma pessoa e tranquilo para quem trabalha ao lado dela, e o post sobre o Eneagrama na liderança mostra como o que irrita pode ser o avesso do que move quem se irrita.
O lado do colega fica com ele. O mesmo comportamento pode nascer de motivos diferentes, como mostra o post sobre o que é personalidade, e o post sobre o que é o Eneagrama mostra por que falar do comportamento concreto rende mais do que tentar adivinhar o tipo de alguém.
Para empresas. Alguns gestores tendem a ignorar a incivilidade para evitar conflitos, e outros podem nem ficar sabendo dos episódios2. Antecipar pontos de atrito antes que eles virem conflitos é uma das propostas da página do Eneagrama para empresas4.
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Faça o teste de Eneagrama
O seu Tipo Principal sai do teste abaixo: é o lado do atrito que dá para conhecer sem depender de ninguém. São 22 perguntas, e o teste leva cerca de 5 minutos5.
Por que a convivência com um colega difícil costuma piorar?
Porque a resposta de quem se incomoda também conta, e uma delas alimenta o problema. A revisão de Malheiros e colegas destaca três respostas à incivilidade2:
- Revidar. É a resposta reativa: responder com mais incivilidade2, o que propaga o ato incivil e pode formar ciclos de incivilidade2.
- Enfrentar. É a resposta de enfrentamento: tentar identificar a natureza ou os motivos que levam o colega a agir assim, traçar objetivos para corrigir o ato e refletir sobre o que a situação ensinou às duas partes2.
- Culpar a si mesmo. Na terceira resposta, quem recebeu o comportamento tende a assumir a responsabilidade por ele2.
Deixar como está também tem custo. Segundo a mesma revisão, a incivilidade que não é combatida pode desencadear agressões e comportamentos de retaliação2.
Um episódio pode bastar para passar adiante
Num artigo de 2016, Foulk, Woolum e Erez investigaram, em três estudos, o contágio da grosseria6. Segundo os resultados do primeiro, comportamentos negativos de baixa intensidade, como a grosseria, podem ser contagiosos: o contágio pode partir de um único episódio, qualquer pessoa pode ser portadora, e o efeito tem consequências para quem interage depois com ela6.
Os autores mostram ainda que a grosseria ativa, na mente das pessoas, uma rede de conceitos ligados a ela, e que essa ativação influencia comportamentos hostis6. Quem convive com um colega difícil pode virar o colega difícil de outra pessoa.
Como lidar com pessoas difíceis no trabalho
Escolhendo a resposta de enfrentamento e recusando a reativa.
- Não responda na mesma moeda. É a resposta reativa, que pode alimentar ciclos de incivilidade2. Escreva a resposta ao e-mail seco e deixe para mandar depois do almoço ou no dia seguinte.
- Faça uma pausa antes da conversa seguinte. O contágio pode partir de um único episódio6. A resposta seca que você recebeu às dez pode sair de você às onze, para alguém que não tem nada com isso.
- Procure a situação antes do jeito. Anote os episódios com dia, hora e o que tinha acontecido antes. Se eles se juntam em torno de um prazo, de um horário ou de um tipo de pedido, a situação pode explicar parte do comportamento, e é ela que o viés de correspondência deixa de fora3.
- Veja se o comportamento pesa só para você. Observe como o colega trata os outros, sem levar o assunto para a conversa de corredor: a fofoca é uma das formas de incivilidade que a revisão cita2. Se o atrito é sobretudo seu, a descrição do seu Tipo Principal ajuda a ver o que, nesse comportamento, incomoda tanto você.
- Converse sobre um episódio e combine uma mudança. A resposta de enfrentamento inclui traçar objetivos para corrigir o ato2. Leve um episódio só, com o que as suas anotações mostraram, e saia com uma mudança que caiba numa frase.
Um exemplo. Numa gráfica rápida, a atendente do balcão já tinha decidido que o colega da impressão era difícil. Ele devolvia pedidos com um “assim não sai”, sem explicar, às vezes com o cliente ainda no balcão. Ela respondeu seco duas vezes, e na segunda percebeu que tinha atendido a cliente seguinte do mesmo jeito.
Antes de falar com ele, ela anotou os episódios da semana. Os pedidos devolvidos tinham duas coisas em comum: eram arquivos mandados pelo celular e chegavam à impressão depois das cinco. A outra atendente do balcão ouvia o mesmo “assim não sai” sem se abalar, e a atendente foi procurar o porquê da diferença na descrição do próprio Tipo Principal.
No dia seguinte, levou a ele um episódio só, o da cliente que ouviu o “assim não sai” no balcão, e o que as anotações mostravam. Ele contou que fechava às seis o lote da van de entregas e que um arquivo refeito atrasava o lote inteiro. Combinaram duas coisas: ela confere a resolução no balcão, com uma lista que ele escreveu, e o pedido que chega depois das cinco entra no lote do dia seguinte.
Fontes
- Michaelis, 2026. Difícil, no Michaelis On-line (português brasileiro). Consultado em 16 de outubro de 2026.
- Malheiros, M. B.; Wegner, R. S.; Tontini, J.; Rossato, V. P.; Andrade, T., 2024. “Que comportamento grosseiro!” Itinerários, campo conceitual e novas possibilidades de pesquisas da incivilidade no trabalho. Consultado em 16 de outubro de 2026.
- Gilbert, D. T.; Malone, P. S., 1995. The correspondence bias. Consultado em 16 de outubro de 2026.
- Teste sua Personalidade, 2026. Eneagrama para empresas. Consultado em 16 de outubro de 2026.
- Teste sua Personalidade, 2026. Teste de Eneagrama. Descubra seu Tipo. Consultado em 16 de outubro de 2026.
- Foulk, T.; Woolum, A.; Erez, A., 2016. Catching rudeness is like catching a cold: The contagion effects of low-intensity negative behaviors. Consultado em 16 de outubro de 2026.