Eneagrama

Autenticidade no trabalho: o que é e o que o Eneagrama mostra

Autenticidade no trabalho: o que é, a diferença entre ser autêntico, dizer tudo o que pensa e se adaptar, o papel da liderança e o Eneagrama.

Autenticidade no trabalho: o que é e o que o Eneagrama mostra

Autenticidade no trabalho é agir e se expressar de acordo com o que você pensa e valoriza, sem fingir o que não é. Ela não exige dizer tudo o que passa pela cabeça, nem agir igual em todo lugar. O Tipo Principal do Eneagrama pode ajudar a notar onde o papel que o trabalho pede se afasta do que move você.

O que é autenticidade?

É a condição de quem é autêntico. O Michaelis a registra como natureza, propriedade ou condição do que é autêntico1. Para uma pessoa, autêntico é quem se assume tal qual é2, e outro dicionário de referência resume a palavra como a qualidade do que é autêntico, verdadeiro3.

A pesquisa brasileira chega perto desse sentido. Num artigo de 2015 na RAM, Revista de Administração Mackenzie, Reis e Azevedo descrevem o comportamento autêntico como um modo de agir e de se expressar consistente com crenças e experiências pessoais4. Citando Wood e colegas, o artigo reúne três componentes4: a consciência de si e das próprias experiências internas, a consistência entre essa consciência e o que a pessoa faz, e a abertura às influências do ambiente social4.

O terceiro componente muda a imagem de quem é autêntico. Não se trata de alguém surdo ao que os outros dizem. O primeiro componente, a consciência de si, é, na nossa leitura, onde o Tipo Principal entra na conversa, como ponto de partida, e o post sobre autoconsciência trata de se notar na hora.

Na nossa leitura, a medida da autenticidade é uma distância. Uma analista concorda com o prazo na reunião de segunda, porque o diretor está olhando, e na terça diz ao colega da mesa ao lado que aquilo não vai dar. O que ela disse na terça é o que pensa. O que fez na segunda ficou em outro lugar.

Ser autêntico é dizer tudo o que se pensa?

Não. Autenticidade pede sinceridade, e o Michaelis define sinceridade como ausência de fingimento ou hipocrisia, franqueza5. O contrário dela é a dissimulação, o encobrimento ou disfarce que uma pessoa faz de suas verdadeiras intenções6.

O dicionário guarda outra palavra para o meio do caminho: tato, a sensibilidade para saber o que é conveniente dizer ou fazer, numa situação difícil ou delicada7. A sinceridade pede que o que se diz seja o que se pensa. O tato decide como e quando dizer.

A pesquisa sobre voz e silêncio reconhece o calar que não é fingimento. Numa revisão de 2014, Moura-Paula apresenta, a partir de Van Dyne e colegas, o silêncio pró-social: reter opiniões, informações e ideias para beneficiar outras pessoas ou a própria organização8. Guardar o comentário sobre o erro de digitação do colega para dizer a ele depois da apresentação, e não diante do diretor, é um exemplo.

Dizer o que se pensa com cuidado costuma ter a forma de uma opinião com o pedido junto. Esse prazo não fecha só informa. Com esse prazo, eu entrego a primeira parte; a segunda precisa de mais uma semana diz a mesma coisa e deixa a conversa aberta. Quem diz a segunda frase não pensa menos: escolheu uma versão que o outro consegue usar.

Adaptar-se ao contexto é deixar de ser autêntico?

Não necessariamente. Reis e Azevedo, citando Harter, escrevem que quem muda o comportamento em contextos relacionais diferentes não está, necessariamente, agindo de forma falsa4. Para os autores, o “eu verdadeiro” seria fluido e dinâmico, e não fixo e estável4. E nas empresas as pessoas devem adequar o comportamento ao ambiente em que trabalham4.

Quem fala de um jeito com o time no almoço e de outro com o cliente na proposta usa o mesmo conhecimento e os mesmos critérios em duas conversas. Mudam o vocabulário, o grau de detalhe e a ordem em que as coisas são ditas. Na nossa leitura, o que fica por baixo disso são os valores, assunto do post sobre valores pessoais.

A adaptação passa a ser disfarce quando exige dizer o contrário do que se pensa. Uma pergunta ajuda a separar os dois casos: o que eu mudei foi a forma ou foi a posição? Mudar a forma é adaptar-se. Mudar a posição só para ser aceito é dissimular6.

O que se ganha com a autenticidade e o que custa calar?

Ganha-se presença. O artigo de Reis e Azevedo, citando Kahn, diz que quando os profissionais desempenham atividades em que podem expressar pensamentos, emoções e novos pontos de vista, eles tendem a estar mais presentes e envolvidos com os seus papéis4. Os autores, citando Svejenova, também veem em “ser autêntico consigo mesmo” uma possível âncora para a carreira num ambiente complexo e fragmentado4.

Calar, por sua vez, tem custo, e a revisão de Moura-Paula separa dois silêncios que não são o pró-social:

  • Aquiescente. É a retenção de ideias relevantes por se resignar8.
  • Defensivo. É o silêncio fruto de uma reflexão estratégica sobre as ideias que devem ou não ser retidas8.

As razões também aparecem: as pessoas podem deixar de transmitir más notícias para evitar desconforto pessoal, respostas defensivas de quem recebe ou consequências pessoais negativas8. Para a organização, os dois silêncios são disfuncionais, segundo Wang e Hsieh, citados na revisão, porque podem impedir a mudança e suprimir melhorias8.

Na nossa leitura, a pergunta que separa os três é a quem o silêncio serve: ao outro ou só a quem se calou.

A cultura da empresa deixa você ser autêntico?

Depende da cultura. Reis e Azevedo convidaram 700 pessoas de uma base de alunos e ex-alunos de uma escola de Administração4, e 199 questionários foram válidos4. Os resultados indicaram que as culturas clã e inovativa estão positivamente relacionadas à autenticidade no trabalho, enquanto as de resultado e hierárquica estão negativamente relacionadas, podendo inibir a expressão de autenticidade4.

Colunas que sobem e descem a partir de uma linha para quatro tipos de cultura de empresa e o peso de cada uma sobre agir de acordo com o que se pensa
Quatro culturas de empresa e o agir autêntico: os pesos vêm do estudo de Reis e Azevedo com 199 profissionais, alunos e ex-alunos de uma escola de Administração, e a leitura de que uma coluna para cima quer dizer mais espaço é nossa.

Os autores alinham o resultado das culturas hierárquica e de resultado ao de estudos segundo os quais as pessoas tendem a expressar menos o que realmente pensam, valorizam e sentem em ambientes em que regras e normas são mais enfatizadas4. O limite é dito pelos próprios autores: a amostra não é aleatória e não permite generalizar4.

Serve também para escolher. Os autores dizem que parece indicado buscar um alinhamento entre as expectativas pessoais e a cultura da empresa4. Numa entrevista, vale perguntar como foi a última vez que alguém discordou da diretoria e o que aconteceu depois. O post sobre cultura organizacional mostra como ler essas regras.

Como a autenticidade muda para quem lidera?

Na nossa leitura, quem lidera tem mais espaço do que o time. No mesmo estudo, a posição de chefia esteve associada a maiores escores de autenticidade, independentemente do tipo de cultura4. O chefe que acha que todo mundo fala o que pensa pode estar medindo o espaço pelo dele.

Dois componentes da liderança autêntica falam do que o líder faz diante dos outros. Num artigo da revista Paidéia, Campos e Rueda, a partir de Walumbwa e colegas, falam de transparência de relacionamento. É apresentar um eu autêntico, e não falso ou distorcido, e promover confiança pelo compartilhamento de informação e pela expressão de pensamentos e sentimentos verdadeiros9. Falam também de processamento equilibrado, em que o líder pede aos outros pontos de vista capazes de desafiar as posições mais firmes dele9.

O artigo registra ainda duas ressalvas. Citando Gardner e colegas, diz que não é viável ver um líder como totalmente autêntico: ele pode ser mais ou menos autêntico9. E há quem defenda que o foco dos estudos saia do líder e vá para as condições em que todos os membros da organização agem de modo autêntico9. Na nossa leitura, para um time a segunda ressalva pesa mais: de pouco adianta o chefe ser transparente se quem está abaixo continua em silêncio.

Dá para começar por três gestos, que são sugestões nossas. Dizer a própria dúvida antes de pedir a dos outros. Perguntar o que está me escapando neste plano? antes de decidir, e não depois. Explicar o critério da decisão, que na nossa leitura ajuda a justiça a ser percebida: Whiteside e Barclay, citados por Moura-Paula, observam que a percepção de justiça integral na organização pode diminuir as chances dos silêncios aquiescente e defensivo8.

Para empresas. Num time, discordar custa menos quando o custo é combinado. O gestor diz em quais decisões quer ser contrariado e o que fará com a objeção quando ela vier. Quem fez o teste pode levar o Tipo Principal para essa conversa, se quiser.
Ver como funciona para empresas

O que o Eneagrama mostra sobre a autenticidade no trabalho?

Na nossa leitura, mostra um ponto de partida para a consciência de si, que no modelo citado por Reis e Azevedo é o primeiro componente da autenticidade4. Na nossa leitura, quando o papel que o trabalho pede se afasta do que move você, o dia custa mais. A descrição do seu Tipo Principal pode dar nome a esse custo: a reunião depois da qual você chega em casa mais cansado do que o volume de trabalho explica.

A primeira ressalva é que o resultado não é um roteiro. O site avisa para evitar estereotipar e lembra que dentro de cada tipo existe uma enorme diversidade de expressões10. Encenar a descrição do seu tipo seria outro jeito de fingir.

A segunda é que todo mundo tem o que dizer e o que reter, qualquer que seja o Tipo Principal. O cuidado com o tipo dos colegas está no post sobre o que é o Eneagrama.

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Antes de anotar os momentos em que você disse sim sem querer, vale ter o Tipo Principal à mão: ele sai de 22 perguntas, em cerca de 5 minutos11.

Como praticar a autenticidade no trabalho

Medindo a distância entre o que você pensa e o que mostra, uma situação de cada vez. Os cinco passos são sugestões nossas:

  • Anote onde você disse sim sem querer. Em uma semana, registre três momentos em que você concordou ou aceitou sem pensar assim, com o que de fato pensava.
  • Leia a lista ao lado do seu Tipo Principal. Veja se os momentos têm algo em comum, como o tipo de pessoa ou de pedido, e se a descrição do seu tipo ajuda a nomear o que pesou.
  • Confira um valor seu contra a agenda. Marque, na semana passada, o que serviu a ele. O que ficou sem nada é onde a distância é maior.
  • Escolha onde dizer. Algumas coisas valem na reunião, outras numa conversa a dois, e outras ficam guardadas por tato. Decida a de cada situação antes de entrar.
  • Cole um pedido na opinião. Em vez de só discordar, diga o que você entregaria ou precisaria para a decisão dar certo.

Um exemplo numa loja de material de construção

Na reunião de segunda, o dono da loja anuncia que toda entrega passará a sair no dia seguinte. O supervisor de estoque sabe que o item que vem do depósito leva dois dias, e balança a cabeça. No fim da semana, a lista dos sins sem querer tem três linhas, e a primeira é essa.

Na descrição do próprio Tipo Principal, ele pode achar uma frase que dá nome ao que pesou naquele silêncio. Na quinta, pede dez minutos e leva uma proposta: o que está na loja sai no dia seguinte, e o que vem do depósito, em dois dias. O dono pede que as duas promessas apareçam juntas no site.

Fontes

  1. Michaelis, 2026. Autenticidade, Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Consultado em 2 de novembro de 2026.
  2. Michaelis, 2026. Autêntico, Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Consultado em 2 de novembro de 2026.
  3. Priberam, 2026. Autenticidade, Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Consultado em 2 de novembro de 2026.
  4. Reis, G. G.; Azevedo, M. C., 2015. Relações entre autenticidade e cultura organizacional: o agir autêntico no ambiente organizacional (RAM, Revista de Administração Mackenzie, v. 16, n. 6). Consultado em 2 de novembro de 2026.
  5. Michaelis, 2026. Sinceridade, Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Consultado em 2 de novembro de 2026.
  6. Michaelis, 2026. Dissimulação, Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Consultado em 2 de novembro de 2026.
  7. Michaelis, 2026. Tato, Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Consultado em 2 de novembro de 2026.
  8. Moura-Paula, M. J., 2014. Silêncio nas organizações: uma revisão e discussão da literatura (RAM, Revista de Administração Mackenzie, v. 15, n. 5). Consultado em 2 de novembro de 2026.
  9. Campos, M. I.; Rueda, F. J. M., 2019. Authentic Leadership: A Theoretical Thematic Analysis of the Contemporary Brazilian Leader’s Speech (Paidéia, v. 29). Consultado em 2 de novembro de 2026.
  10. Teste sua Personalidade, 2026. O que é o Eneagrama, página do site. Consultado em 2 de novembro de 2026.
  11. Teste sua Personalidade, 2026. Teste de Eneagrama, página do teste. Consultado em 2 de novembro de 2026.

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