Valores pessoais são o que você considera importante na vida e usa como critério na hora de escolher. Eles ficam numa ordem de importância, e o que separa um valor do outro é a motivação por trás dele. O Tipo Principal do Eneagrama dá nome a essa motivação e ajuda a ver qual valor pesa mais quando dois deles não cabem na mesma escolha.
O que são valores pessoais?
São crenças sobre o que importa, e a pesquisa as trata como metas que orientam a vida. No Michaelis, valores são crenças em relação ao que é certo ou errado e ao que é importante na vida, em termos morais, culturais e sociais1.
Juliana Barreiros Porto e Álvaro Tamayo, num artigo de 2003 na revista Psicologia: Teoria e Pesquisa, usam a definição de Schwartz: critérios ou metas que transcendem situações específicas, ordenados por sua importância, que servem como princípios que guiam a vida2. Para os autores, essa estrutura de valores tem uma função motivacional importante2.
Transcender situações quer dizer que o valor vale no trabalho, em casa e na conta do banco. Ordem de importância quer dizer que a sua lista já tem uma hierarquia, mesmo que você nunca a tenha escrito. E guiar a vida quer dizer que o valor aparece nas escolhas. Segundo Tamayo, a associação entre valores e comportamento já foi verificada inúmeras vezes no Brasil3.
Num texto de 2007, Tamayo registra um ponto em que os autores praticamente concordam: valores são representações cognitivas das necessidades3. Ele acrescenta a contribuição de Schwartz: o que diferencia um valor de outro é o tipo de motivação que ele expressa3. Valores pessoais, nessa leitura, são metas motivacionais que expressam alvos que a pessoa quer atingir na vida3.
O Eneagrama conversa com essa ideia. Cada um dos 9 perfis do Eneagrama tem, no modelo, a sua motivação central4. O valor é o que você diz que importa; a motivação é o que dá peso a ele.
Exemplos de valores pessoais, organizados em quatro direções
Uma lista solta, com honestidade, família e liberdade, ajuda pouco, porque não mostra quais valores combinam e quais disputam espaço. A teoria de Schwartz agrupa os valores a partir da motivação de cada um, e Tamayo registra que essa estrutura de 10 motivações foi verificada com amostras de mais de 67 países3. Porto e Tamayo descrevem quatro grandes direções:
- Autotranscendência. Reúne o universalismo e o cuidado com as pessoas próximas, com ênfase na igualdade e na preocupação com o bem-estar dos outros2. Na prática, cabem aqui justiça, lealdade aos amigos e ajudar quem está perto.
- Autopromoção. Reúne poder e autorrealização e se refere à busca de sucesso e de domínio sobre os outros2. Na prática, cabem aqui reconhecimento, ambição e influência.
- Abertura à mudança. Reúne hedonismo, estimulação e autodeterminação e se refere à busca de independência de pensamento e de ação, a favor da mudança2. Na prática, cabem aqui liberdade, criatividade, novidade e prazer.
- Conservação. Reúne tradição, conformismo e segurança, com ênfase na tradição e na proteção da estabilidade2. Na prática, cabem aqui segurança, ordem, respeito às regras e costumes de família.
As quatro formam dois pares de polos: autotranscendência contra autopromoção, e abertura à mudança contra conservação2. Na estrutura circular da teoria, quanto mais perto um tipo de valor está de outro, maior a chance de combinarem, e quanto mais longe, maior a chance de conflito5.
Por isso a mesma pessoa pode ter, na lista, reconhecimento e lealdade aos amigos, ou liberdade e segurança. Nada de errado nisso, mas em algumas escolhas um dos dois vai ter de ceder.
Quais são os valores no trabalho?
São os valores pessoais apontados para o trabalho: o que você busca por meio dele. Porto e Tamayo definem valores relativos ao trabalho como princípios ou crenças sobre as metas e as recompensas desejáveis, organizados em hierarquia, que as pessoas buscam no trabalho2. Segundo a mesma definição, eles guiam a avaliação do trabalho, o comportamento nele e a escolha entre alternativas de trabalho2.
Na escala que os autores construíram, com amostra final de 394 respondentes2, os valores do trabalho se juntaram em quatro fatores2:
- Realização no trabalho. A busca de prazer e de realização pessoal e profissional, e de independência de pensamento e de ação, pela autonomia intelectual e pela criatividade2.
- Relações sociais. A busca de relações positivas no trabalho e de contribuição positiva para a sociedade por meio dele2.
- Prestígio. A busca de autoridade, de sucesso profissional e de poder de influência2.
- Estabilidade. A busca de segurança e de ordem na vida por meio do trabalho, com as necessidades materiais garantidas2.
Os quatro não formam uma lista à parte. Num artigo de 2007, os mesmos autores partem da ideia de que cada pessoa tem uma estrutura de valores que guia a vida de maneira geral5. Para focos específicos, como o trabalho, existe uma estrutura particular ligada a essa mais ampla5.
Por que dois valores entram em conflito numa escolha?
Porque alguns valores puxam para lados opostos, e uma escolha concreta nem sempre deixa atender os dois ao mesmo tempo. Na teoria de Schwartz, como descrevem Porto e Tamayo, a priorização simultânea de domínios incompatíveis levaria a conflitos2.
Um estudo dos mesmos autores testou isso cruzando os valores do trabalho com os valores gerais. Porto e Tamayo ouviram 995 estudantes universitários de ambos os sexos, com média de idade de 21 anos5. As relações de compatibilidade e conflito foram confirmadas só em parte5, e os dois achados mais úteis para quem decide apontam para lados diferentes.
Prestígio e relações sociais apareceram em tensão, cada um com o polo oposto dos valores gerais. Os autores encontraram covariâncias negativas entre relações sociais e autopromoção, e entre prestígio e autotranscendência5. Na interpretação deles, a procura por sucesso pessoal e influência social dificulta a busca de relações sociais positivas no trabalho5. Ela pode implicar menos tempo e atenção às pessoas próximas e competição com colegas5.
Já estabilidade não saiu incompatível com abertura à mudança, nem realização no trabalho com conservação5. A explicação dos autores é que, para criar e fazer coisas diferentes, é importante ter independência financeira e estabilidade no trabalho, para se sentir livre5. Eles também consideram a hipótese de que, no contexto social da amostra, esse conflito não seja percebido5.

No trabalho, o choque costuma chegar como proposta. Uma analista de compras é convidada a coordenar a área. O cargo traz autoridade e um salário melhor. Também a tira da mesa da equipe com quem divide os projetos há quatro anos e a põe para avaliar esses mesmos colegas. Os dois valores são dela, e a proposta não deixa atender os dois do mesmo jeito.
O que o Eneagrama mostra sobre os seus valores?
Mostra a motivação que tende a decidir quando dois valores seus não cabem na mesma escolha. Se o que diferencia um valor de outro é a motivação que ele expressa3, o Tipo Principal, que dá nome à motivação central de quem responde ao teste4, ajuda a ler a própria lista por dentro.
A leitura que fazemos é esta: quando dois valores da sua lista se chocam, o que fica mais perto do que move você tende a pesar mais. A analista do convite pode dizer, com sinceridade, que valoriza o crescimento e a equipe na mesma medida. Na hora de responder ao diretor, um dos dois costuma pesar mais, e com o Tipo Principal à mão fica mais fácil dizer qual, e por quê.
O caminho da decisão em si, das opções aos critérios, está no post sobre tomada de decisão.
Nenhum perfil chega com valores melhores. O Tipo Principal não deixa a lista mais nobre nem mais pobre, só ajuda a ver onde ela costuma ceder.
Faça o teste de Eneagrama
O teste abaixo mostra o seu Tipo Principal, um nome para a motivação que você pode pôr ao lado da sua lista de valores. São 22 perguntas, e responder leva cerca de 5 minutos6.
Como identificar os seus valores pessoais
Fazendo uma lista, cortando até sobrar pouco e conferindo o resultado contra o que você já escolheu de verdade. Quatro passos ajudam:
- Liste os candidatos. Passe pelas quatro direções e anote, em cada uma, os valores que soam seus. Use as suas palavras: “não depender de ninguém” vale tanto quanto “autonomia”.
- Corte até um ou dois. Para Tamayo, os valores supremos de uma pessoa, por definição, são um ou dois3. Lista com dez valores supremos ainda não tem ordem.
- Confira contra escolhas reais. Pense em três decisões dos últimos anos que custaram alguma coisa: um emprego recusado, uma mudança de cidade, um dinheiro gasto ou guardado. Veja qual valor ganhou em cada uma.
- Marque os pares que brigam. Procure, na lista final, dois valores de direções opostas, como prestígio e relações sociais. Leia esse par ao lado da descrição do seu Tipo Principal e anote qual dos dois ela ajuda a explicar.
Perguntas para identificar os seus valores
- De que abri mão sem sofrer, e do que não abriria?
- Que escolha me custou caro e eu faria de novo?
- Que proposta de trabalho eu recusei, e o que ela me tirava?
- Em que situação uma regra me irrita, e em qual eu defendo a regra?
Um exemplo numa proposta de emprego
Designer numa agência pequena, ele recebe uma proposta de uma rede de varejo: carteira assinada, salário maior e tarefas bem definidas, com pouco espaço para criar campanhas próprias. Na lista dele, estabilidade e liberdade para criar aparecem empatadas no topo.
Ele confere três escolhas antigas. Em duas, aceitou projetos por conta própria com renda incerta para ter mais liberdade. A motivação que a descrição do próprio Tipo Principal traz ajuda a entender essas duas escolhas melhor do que a lista ajudava.
Em vez de recusar de saída, ele leva uma pergunta para a conversa com a rede: dá para assumir um projeto próprio por trimestre? No estudo de 2007, estabilidade não saiu incompatível com abertura à mudança5, e a resposta da empresa decide se, no caso dele, as duas convivem.
Como os valores pessoais entram na escolha de um emprego?
Como critério para comparar propostas e como pergunta para fazer à empresa. Tamayo conta que o seu interesse pela relação entre valores e comportamento nas organizações vem da convicção de que o trabalho tem que estar articulado com as metas do trabalhador3. Para ele, entender a adaptação de quem trabalha ao ambiente de trabalho pede investigar se há paralelismo entre os valores pessoais e os da organização3.
Na entrevista, a lista de valores que a empresa divulga diz pouco, porque quase toda empresa escreve as mesmas palavras. Vale perguntar como ela decidiu da última vez que dois desses valores se chocaram, como um prazo contra a qualidade ou a meta do mês contra o cuidado com o cliente. A resposta mostra a ordem dela, e aí dá para comparar com a sua.
Do lado de quem lidera, quem diz o que pesa para cada pessoa é ela mesma, e não um palpite sobre o perfil. Como aplicar o teste no time está no post sobre o Eneagrama nas empresas.
Para empresas. Quando a equipe muda de rotina, de chefia ou de projeto, o Eneagrama no time ajuda cada pessoa a dizer ao gestor o que a mudança tira dela, e não só o que oferece.
Ver como funciona para empresas
Fontes
- Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa: valor. Consultado em 29 de outubro de 2026.
- Juliana Barreiros Porto; Álvaro Tamayo, 2003. Escala de valores relativos ao trabalho: EVT (Psicologia: Teoria e Pesquisa). Consultado em 29 de outubro de 2026.
- Alvaro Tamayo, 2007. Contribuições ao estudo dos valores pessoais, laborais e organizacionais (Psicologia: Teoria e Pesquisa). Consultado em 29 de outubro de 2026.
- O que é o Eneagrama (Teste sua Personalidade). Consultado em 29 de outubro de 2026.
- Juliana Barreiros Porto; Álvaro Tamayo, 2007. Estrutura dos valores pessoais: a relação entre valores gerais e laborais (Psicologia: Teoria e Pesquisa). Consultado em 29 de outubro de 2026.
- Teste de Eneagrama (Teste sua Personalidade). Consultado em 29 de outubro de 2026.